João Vitor

Apresento agora, a primeira escrita poética do psicólogo João Vitor Haeberle Jaeger, que descreve suas emoções em relação a surdez, uma poesia que transporta ternura, verdades e sonhos que podem ser realizados na relação entre mãe, pai, família e o bebê surdo. Com a profundeza dessa mensagem possa fazer com que todas as famílias de bebês surdos se inspirem, se identifiquem, pois só o amor pode libertar e VOAR para além do horizonte!

Como gostaria de saber o que sente uma borboleta. Ouvi-la em seus sussurros, silenciosa floculando o céu. Cada abanar de asas, uma mensagem para o firmamento. Como gostaria de entender uma borboleta. Conhecer seus anseios, captar suas dores, absorver sua liberdade. Assim apresento meus pensamentos, na zona intermediária entre o som e o silêncio. Olho, desde a fronteira da incompreensão, mãe e filho olhando-se no silêncio. O que diz esse corpo recém-nascido que urra para o mundo na busca de alguém que o possa compreender?

            No princípio, os pais sonham com um filho, o nomeiam conforme suas expectativas. Querem que a criança seja robusta, saudável, inteligente. Querem que o filho venha ao mundo para realizar o desejo de eternidade – a geração seguinte, com as marcas da anterior mantém vivo o nome de uma família. Os pais anseiam por uma prole com a qual possam conversar, ensinar, passar adiante suas conquistas, legados e superações. O filho imaginado no desejo dos pais é completo em todos seus atributos. Anseiam pelo reflexo, por se verem perpetuados nos traços de suas crias. Não é comum ouvir pais, com orgulho, dizer que a filha puxou os olhos da mãe, ou o narizinho do pai? Então, com voz de ternura, cantigas de paixão, os pais contornam o corpo dos filhos depositando narrativas sobre seus corpos. Assim acompanham seu crescimento, desde o ventre através de ecografias até o dia em que partem em direção ao Sol. Que devaneio transformador observar voando uma borboleta. Alternando as pétalas das flores, voa na primavera que carrega em seu corpo. Uma borboleta é como uma flor voadora, colorindo os horizontes com pétalas aladas. Mas o que quer dizer o seu balouçar?

            Nem todo nascimento é gerador de alegrias. Que susto sofrem os pais ao receber a informação que não gostariam de ouvir. Que dor em seus imaginários saber que o bebê não ouve, que é surdo. Quanta frustração e desapontamento ao saber que uma parte nascida de si não ouvirá suas vozes, que não responderá ao chamar de seu nome. Ao olhar, em seu colo, o bebê surdo, quantas mães não se sentiram feridas culpando-se pela surdez de seu pequeno? Talvez de raiva ou decepção, chorar aos berros, urrar ao vento auto-acusações: Por que comigo? O que fiz de errado? mas não receber de volta, senão o eco do desespero. Muitas vezes, pais, ao se defrontarem com o recém nascido surdo, deixam de falar com ele, pois acreditam que ele não irá escutar. ‘É surdo mesmo, não ouve’ dizem em tons de desamparo e decepção. Assumem falência no investimento afetivo. Deixam de lado a ternura para cobrir de lamentos e desprezo o corpo sadio de um indivíduo ansioso por viver. O mundo é cruel, nascer é um trauma – muitas vezes catalisado pelo desvio do olhar daqueles que esperamos que nos amem. Quantas vezes observei em silêncio as rachaduras nas asas da borboleta? Tão bela em seu encanto, também carrega consigo cicatrizes. A borboleta é símbolo de metamorfose, marca dos frutos de muito esforço, desejo e investimento. Olhar e cuidados da mãe natureza que resguardam o ambiente de sua transformação.

            Pais e mães, amem seus filhos. Deixem-se atravessar pelo olhar de ternura que eles expressam em silêncio. A criança surda ouve com os olhos, o tato, o olfato e o paladar as mensagens vibrantes que o mundo emite. Sejam modelos de superação ao suplantar as frustrações de não ter tido um filho igual àquele que um dia imaginaram. Amem também no silêncio do amor materno e paterno, sabendo que o nenê em seus braços percebe o mundo ao seu redor. Então, quando tiverem no colo um filho surdo, não gritem na expectativa de que ele reaja ao susto, aproximem-se para sussurrar em seus olhos sinais com as mãos, carinhos no ar. Amem-no acima de qualquer barulho.

João Vitor, muito linda a sua escrita e emociona todos nós, obrigada por compartilhar com a gente!! Que as suas escritas venham ajudar muitas pessoas!!