Mãe e bebê

Desta vez, a psicóloga e colunista do blog SSVB, Juliana Neves faz um relato muito importante sobre a relação não verbal entre pais e bebês, ou seja, uma relação afetiva saudável e indispensável para construção de personalidade e desenvolvimento do ser, mesmo com erros e acertos, eles aprendem a se relacionar de acordo com a natureza das coisas. Mas quando o bebê é surdo, essa relação não verbal passa a ser a mais importante do universo: o contato visual, e isso jamais deve ser desconectado! Desfrutem então a leitura abaixo. Muito bom!

A importância da comunicação não verbal

Por Psicóloga Juliana Neves

Dizem que um olhar vale mais que mil palavras. Eu acrescentaria o valor de um sorriso, um colo, um carinho e outras dezenas de gestos e expressões que nas mais variadas circunstâncias têm um poder enorme de falar por nós. São movimentos despidos de palavra, mas que transbordam afetos e, sobretudo, comunicam, possibilitando um entrosamento entre os sujeitos.

Afinal, é assim que tudo começa.

Quando um bebê nasce, até que adquira a capacidade de enunciar seus sentimentos e desejos, depende de uma série de ponderações do ambiente para ter suas solicitações atendidas. Para tanto, o pequeno vai usar dos recursos que possui (o choro, por exemplo) para interagir com o cuidador, que deve estar disponível para reconhecer tais manifestações não verbais. Assim, o responsável deve responder à criança não apenas satisfazendo suas exigências fisiológicas, mas também, como se fosse um espelho, acolhendo suas demandas com apreço. Esses primeiros cuidados e devoluções são fundamentais para o sentimento de confiança e autonomia, que gradativamente se instalam.

Sendo impossível uma relação perfeita – se tratando de seres humanos – espera-se que o vínculo se estabeleça de forma suficientemente satisfatória (Winnicott, 1975). O que isso quer dizer? Quer dizer que é natural cometer alguns tropeços, pois falhar também faz parte do processo. Ademais, cada bebê vai dispor de características diferentes, que nem sempre condizem com as expectativas dos pais, exigindo muito jogo de cintura e aceitação dos mesmos. Isso nem sempre é fácil. No entanto, é importante ter em mente que garantir uma retomada, entre erros e acertos, é substancial para a constituição emocional da criança, seguindo por toda a vida.

Acontece que, não raro, alguns pais, ao serem acometidos pelo diagnóstico de surdez do filho, subitamente se calam, em todos os aspectos. Seja pela frustração, pelo medo ou pela desinformação, rompem com a energia que até então dispunham àquela ligação. Tal desinvestimento acaba por abandonar o pequeno num mundo demasiado silencioso, não apenas de sons, mas, sobretudo, de afetos. Esse vão que se abre causa muita ansiedade, pois impede uma troca de informações vitais para o desenvolvimento.

Sem a possibilidade de ouvir a voz, demais recursos tornam-se ainda mais necessários. Expressões faciais, o toque e o olhar, serão as vias pelas quais o amor irá transitar. Portanto, ao invés de abrir mão desse intercâmbio, eu convidaria os pais à lançarem mão de suas potencialidades para lidar com as diferenças. Assim, podem transmiti-las aos seus bebês, dando-lhes uma base segura para enfrentar o mundo que o espera.

  • WINNICOTT, D. W. (1896 – 1971). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Juliana Neves é psicóloga (CRP 07/18462) e atende adolescentes e adultos em Psicoterapia Psicanalítica. É mestranda da UFRGS, onde pesquisa sobre o desenvolvimento emocional e atendimento psicológico de pessoas surdas

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Psicóloga Juliana, obrigada por compartilhar conosco!