Thalita

Lembram do POST que fiz aqui anteriormente no blog “Novas escritoras por aí”? Pois então, Thalita Leite, filha da Dra. Pediatra Teresa Leite, residentes em Angra dos Reis/RJ, hoje Thalita tem 21 anos de idade, deficiente auditiva e oralizada, apresenta sua vida, convivendo com a surdez desde bebê, vamos compartilhar mais uma história!! Vamos lá:

“Eu nasci com audição normal, sem problemas, com 3-4 meses, eu comecei a ter febre alta constante e vários sintomas, ao chegar no hospital, fui diagnosticada com meningite meningocócica, descobriram então que eu iria começar ficar surda. Minha mãe, que é médica pediátrica, sob a orientação de um pediatra e um neurologista, procurou a entender melhor sobre a surdez, foi atrás de otorrinolaringologia, escolas de surdos, fonoaudiólogos. Alguns aconselharam a usar aparelhos auditivos e outros a fazer estimulação precoce para audição, e desde então utilizo-os. E a minha audição é severa e profunda. Sem aparelho 90db/95db e com aparelho 30db/25db (se não me engano).

Durante meus 21 anos, mais especificamente, 22 anos, minha vida tem sido normal, fui tratada como uma criança qualquer, então, brincava muito, cantava, dançava, pulava, toda aquela bagunça barulhenta que as crianças fazem. Hoje em dia, eu gosto muito mesmo de ouvir músicas, e canta-las, não posso imaginar minha vida sem música; faço karate, curso de inglês, tento, o máximo, aprender o japonês sozinha, apesar de saber um pouquinho de algumas palavras, faço faculdade de Design desde 2013, gosto muito de jogar vídeo-game, assistir filmes, desde que seja legendado, porque, dublado é coisa mais horrível que já vi na minha vida, muito difícil de compreender, em relação ao teatro, só vou em musical, gosto de ler livros, revistas, desenhar, tenho cachorros, porquinho da índia, hamster!

Como eu uso aparelho, tenho responsabilidade com ele, correto? Para dormir, tomar banho, mergulhar, preciso tirá-los, o que é difícil, pra tomar banho, tomo sozinha, mas quando criança, conversando com meus pais, eu lia seus lábios, pra mergulhar, mesma coisa, porém, eu sinto que a água amplia os sons, e escuto algumas coisas, mas na hora de dormir… Alguém me acorda, ou a minha cachorrinha que é poodle micro toy anão, tem latido tão agudo, que sou capaz de ouvir o latido, o que é me deixa brava…rsrs ou uso travesseiro despertador (é bem legal, ele vibra bem forte para te acordar, você pode comprar através do site japonês de confiança, clique na imagem abaixo para conhecer!!

Travesseiro

Como fui estimulada por uma fonoaudióloga até meus 16 anos, com ajuda dos meus amigos e família, ninguém percebe que eu sou surda, porque eu falo igual a uma pessoa comum, não tenho dificuldade de falar, até mesmo porque eu falo bem rápido, de forma bem dirigida, mas tenho necessidade de ler os lábios das pessoas, não importa o quão rápido seja, meu irmão fala mais rápido do que eu! Mas se houver alguém que não tenha essa estimulação nos lábios para formar palavras, eu teria que ensiná-los como fazer isso, eu já perdi de contas quantos amigos meus já aprenderam isso! O que pode acontecer de engraçado, são pessoas que não me conhecem, começam a conversar comigo, e quando não entendo algo, peço para repetir de forma mais clara, e explico o porquê, e a pessoa fica surpresa, e peço para que ela não se preocupar, que dará tudo certo!

Outra situação, é quando pego táxi, a pergunta mais comum que fazem é: ‘você é estrangeira? você fala engraçado!’, explico para eles sobre a minha surdez e a minha trava língua, pois quando criança, eu cortei minha língua ao cair no chão.

Eu e a minha mãe sofremos de preconceito, mas não com as pessoas que escutam e falam, muito pelo contrário, é muito estranho sofrer preconceito com surdos que falam LIBRAS e não usam aparelhos auditivos, e pessoas que são professores e responsáveis por essas crianças. Eles sempre discordam com pessoas que são surdas, usarem aparelho e ter estimulação, é uma luta bem difícil. Espero um dia, que esse preconceito quebre, porque, eles não gostam de incluir crianças e jovens  como eu, assim como meus amigos, família, que falam e escutam sempre me incluíram em várias coisas, conversas, brincadeiras, cinema e etc…”.

É uma caminhada muito especial, no relato que Thalita faz sobre o preconceito mostrando mais uma vez o distanciamento entre as pessoas com perda auditiva. E penso até hoje: Por que os surdos “oralizados” (falam) e “sinalizados” (utilizam somente a LIBRAS para comunicação) separam tragicamente seus preciosos mundos? Tenho lutado muito para que todos os surdos possam se unir e crescerem juntos, independentemente de sua escolha de vida e comunicação. Todos conhecem exatamente a mesma dor do preconceito, isolamento e rejeição…

Mesmo sendo oralizada, eu amo LIBRAS, esta língua tem me apoiado muito em palestras, congressos e até mesmo em teatros, assim como prestigiei a “TRIBOS” e “É Proibido Miar” em Porto Alegre.

Todos nós esperamos um dia de termos a graça que esses dois mundos se encontrem, curtem e respeitam a escolha de comunicação!! Será um exemplo de atitude inteligente e construtiva!

O livro de Teresa e Thalita Leite é maravilhoso, mais um para fazer parte entre referências bibliográficas, vale a pena adquirir! No momento, para maiores informações entre em contato por e-mail:  blog@surdezsilencioemvoodeborboleta.com ou clique em “contatos” neste blog!

Um beijo carinhoso a todos!!