Maestrina Carolina 2

Fiquei surpresa ao receber o e-mail de uma longa e linda história da Carolina Araújo, que foi em busca do seu sonho, de ser Maestrina! Quando desejamos algo com fervor, caminhamos em direção dela com toda a certeza que iremos ultrapassar todas as barreiras! Segue sua história:

Olá me chamo Carolina Araújo sou surda, tenho perda auditiva bilateral neurossensorial, sou bilíngue e adoro falar LIBRAS e também o Português, nasci ouvinte comecei a perder a audição aos nove anos de idade e assim fui perdendo gradativamente. Não se sabe ao certo o motivo da perda da minha audição.

Tive muitas otites quando eu era criança, cheguei a fazer uma cirurgia nos ouvidos quando tinha sete anos, os meus tímpanos estavam perfurados e com secreções, fiquei um tempinho na fila de espera no SUS para fazer a cirurgia, e depois de três anos fui fazer um exame de audiometria, exame de rotina e por fim acusou uma perda leve na orelha esquerda, e no ouvido direito estava entre leve para moderada. A partir dos 15 anos de idade, a minha audição começou a piorar. Fiz então o pedido de AASI no SUS, foi renegado, pois minha perda auditiva era flutuante.

Passei por momentos difíceis na escolha de AASI, por não ter condições financeiras e por vergonha de usá-los. Medo de sofrer rejeição, bulling e apelidos como “olha lá a surdinha e etc…”

Somente com 18 anos de idade, eu comecei a ver a “Surdez” com outros olhos, pois fiz amizade com outros surdos indicados pela minha fono, todos eles usavam AASI, alguns falavam LIBRAS e outros não. Mais tarde, conheci outra surda usuária de AASI no meu novo emprego, que também teve a mesma dificuldade de utilizar os aparelhos, mas superou e passou a aceitar, e eu também!

Comecei a estudar Música no mesmo período que tive o diagnóstico da Perda inicial aos 9 anos e comecei com o Violão depois venho Trompete, Clarinete, Trombone, Guitarra, Flauta Doce e Flauta Transversal. Hoje em dia só estudo Flauta Transversal.

No Ano passado fiz um teste em uma escola de Música em São Caetano do Sul (Fundação das Artes), eu ainda não usava aparelho e estava para colocar, fiz o teste mesmo assim, os dois testes fiz no mesmo dia: o de Flauta e o de Teoria Musical e passei nos testes, mas antes de fazer o teste na Fundação conheci duas Professoras de Música que são duas professoras que cuidam do programa PAPI (Programa de Apoio Pedagógico à Inclusão) da Fundação das Artes.

Na fundação tenho aulas individuais de Flauta e de outras matérias com outros alunos estudo em uma sala de ouvintes tenho uma pessoa que me acompanha nas aulas tenho matéria de Rítmica, Estrutura Musical, Canto e Percepção Musical.

No começo achei que teria dificuldades nas matérias de Canto e Percepção Musical, quando comecei a estudar na Fundação no começo deste ano (2016) eu já estava com o AASI fazia pouco tempo, mas já estava cantando e nunca tinha feito até porque não escutava minha voz, passei a escutar com o AASI e percepção Musical era a matéria que eu achava que não ia conseguir, pois exige muito a trabalhar com os ouvidos, era a matéria que tinha mais medo! Mas dei o meu jeito, colocando as minhas mãos no Piano e fui aprendendo sobre “Percepção Musical”.

Era um bicho de sete cabeças e eu conseguia estudar essa matéria na Fundação das Artes, os Professores são muitos atenciosos comigo, principalmente na aula de Canto e Percepção Musical.

Sinto a Música em meu Corpo, essa trajetória musical me ajudou muito nos dias que eu pensava que era inútil, eu pegava meu violão, minha Flauta e tocava com raiva por não conseguir ouvir o som, principalmente da Flauta, mas conseguia sentir os sons no meu corpo, e cheguei a pensar que estava ficando louca, mas não! Os surdos podem sentir a vibração da música.

No começo do ano passado comecei a estudar Regência com a Orquestra Jovem de Jacareí, desde quando eu era criança já sabia o que queria ter como profissão: Maestrina, meus pais são separados, tinha finais de semana que eu ficava com meu pai e ele colocava desenhos da Disney para todos nós: eu, Camila e meu primo para assistirmos, e teve um desenho que vi uma Orquestra, que havia um homem mexendo com os braços que nem louco, gostei muito do que vi e olhei para meu pai e disse que queria ser aquela pessoa mexendo os braços, meu pai não deu muita bola até porque como disse ele: “Era uma criança que ainda ia ver e viver muita coisa”.

Quando comecei a estudar música, meus pais não levaram muito a sério, mas com o passar do tempo fui mostrando que eu podia estudar música mesmo com a perda auditiva, hoje estou regendo em todos os concertos e fazemos apresentações.

Meu primeiro concerto como Maestrina Regendo foi no meio do ano passado com a Orquestra Jovem de Jacareí, um desafio para os músicos e Musicistas ser regido por uma Surda, mas deu tudo certo, eles foram e são super atenciosos e cuidadosos  comigo.

O Maestro titular também me fez sentir segura com eles, assim como me sinto na Fundação das Artes. Já me isolei muito das pessoas e tinha medo de falar, hoje em dia quando não entendo, pergunto e se eu não entender, pergunto novamente… já ouvi muitos a me dizerem “Nossa como você fala!”.

Também já sofri preconceitos na música por ser surda, hoje não mais, até porque existem vários projetos de inclusão na música. Bom, essa é um pouquinho da minha historia com a surdez. Segue um link de um vídeo onde estou regendo:

 “A Música esta em todo lugar, basta sentir – lá” 

Lindo não é? Te desejo todo o sucesso do mundo para você Carolina!! Que sua música espalhe pelo mundo afora!!! A música é a cura da alma! Parabénsss!