Para quem quiser conhecer, pela primeira vez, apresento a minha voz aqui no blog! Mais uma vez fui convidada para realizar uma entrevista na Rádio da Universidade, programa Folhetim com a Rejane Salvi sobre minha obra Surdez: Silêncio em Voo de Borboleta, a gravação ocorreu no último sábado (22.02.2014). Foi um desafio, mas recebi perguntas que trouxeram ênfase dos detalhes tão importantes que vivenciei nesta minha trajetória. Foram 25 minutos de entrevista, muitas perguntas e respostas…. Resolvi também escrever a minha fala, para que outros Deficientes Auditivos ou surdos possam acompanhar. Além disso, tive a ideia de colocar aqui no post somente as perguntas da apresentadora, você poderá clicar as que lhes interessar mais, e logo verás as minhas respostas logo abaixo, ou leia tudo, como preferires! Boa leitura ou então aprecies o áudio!

Rádio Universidade

Escrita da rádio
Obs: Houve pequenos ajustes no texto para melhor se ajustar a forma escrita

Segue a abertura de Rejane Salvi:

“Boa tarde Ouvintes!
O programa de hoje destaca a obra Surdez: Silêncio em Voo de Borboleta, uma publicação da editora Movimento de autoria de Patrícia Rodrigues Witt. Então este é um livro autobiográfico que conta a história de uma pessoa que passou por uma diferença no seu nascimento. Patrícia, que nasceu em Porto Alegre é graduada em Terapia Ocupacional na Rede Metodista do Sul (IPA). Tornou-se pioneira nacional ao graduar-se nesta área sendo surda profunda em ambos ouvidos, atualmente pós-graduada em Marketing Digital na ESPM Sul.”


1) Nós contamos com a presença de Patrícia, que fala como foi a construção desse livro:

Boa tarde! Na construção deste livro eu comecei com um diário de 20 páginas e pensei que poderia escrever mais páginas e assim construir um livro, com um propósito de apoiar pais de surdos, profissionais, fonoaudiólogos e etc…Por que eu tive um apoio muito grande pela família, profissionais, fonoaudiólogas, pedagogas e principalmente minha mãe. Eu fazia os treinos todos os dias praticamente e aprendia a falar. Foi um livro muito empolgante de escrever com este propósito de ajudar outras pessoas.


2) Tu tens esse objetivo com o teu trabalho de mostrar que um surdo pode conseguir falar normalmente?

Isso, exatamente!


3) Como foi a descoberta da surdez, já foi na pré-escola?

Sim, minha mãe não queria me dizer que eu era diferente dos colegas e amiguinhos. Ela escolheu que eu descobrisse sozinha, de uma forma mais natural possível. Quando eu estava na pré-escola ou na 1ª série, eu comecei a perceber que eu era diferente, via as pessoas falarem no telefone naturalmente, quando eram chamadas atendiam imediatamente ao chamado. Comecei a questionar isso, fui então descobrindo de uma forma natural, não foi de causar pânico. Minha mãe sempre conversou comigo, explicava tudo, desde pequena.Sempre em forma de brincadeira, ela foi me ensinando a fazer uma ponte, uma relação com o mundo.


4) Tu nasceste desta forma diferenciada, porque tua mãe teve Rubéola na gestação?

Sim, foi uma época muito preocupante para toda a família. Ela ficou em repouso e aos poucos foi se recuperando, e quando nasci, foi tudo perfeito! Depois, com um ano e meio ela me levou no otorrinolaringologista (tinha dores de ouvido), foi então que o médico disse que eu tinha surdez profunda em dois lados.


5) Tu ouves alguma coisa?

Sem os aparelhos auditivos (AASI), não escuto nada, só se for uma bomba, um barulho muito alto mesmo…Agora estou a um ano com os novos AASI, que estão me ajudando muito com o som, mas ainda não consigo entender as palavras sem leitura labial, até consigo identificar algumas, mas ainda dependo da leitura labial. De qualquer for estes AASI está me ajudando muito a me comunicar com as pessoas.


6) No livro, tu conta toda essa trajetória. Como a tua mãe se comunicava contigo?

No início foi muito difícil, porque eu era pequena e ela tinha que me mostrar, apontar, meu vocabulário era muito restrito. Muitas palavras abstratas que ficava ainda mais difícil, por exemplo: o que é ser triste, alegre, feliz, empolgado, irritado, brabo… Então, toda vez que ela explicava estes sentimentos, aproveitava as situações se estivesse braba, falava-me pausadamente e de frente: “ Isso que estás sentindo é BRABA”.Quando ficava alegre, ganhava presente de natal por exemplo, ela dizia: “Tu está feliz!”. Comecei a relacionar tudo assim, como outras palavras, ela desenhava, fazia teatro, mimica, trabalhávamos juntas sempre, cada vez mais fui adquirindo o vocabulário.


7) Como que tu chegas a compreensão que um som é daquela palavra?

Olha, é difícil de responder…Quando eu era pequena, os antigos AASI eram muito fracos para a minha perda auditiva, então com o treino, a fonoaudióloga colocava a mão no pescoço (garganta) e eu acompanhava o movimento, sentindo a vibração de cada letra, cada palavra…Assim, eu fui imitando, reproduzindo as palavras e fui relacionando os sons que percebia com os restos auditivos, as palavras fui aprendendo com a leitura labial, com a escrita, com a fala, desenhos…Fui construindo a linguagem de uma forma totalmente visual.


8) Falando em desenhos, no teu livro tem uma passagem que tu contas das primeiras marcas ruins que tu tiveste em relação a sua trajetória. Quando uma professora pediu para ti desenhares um determinado desenho e tu não desenhaste e ela teve uma reação muito, muito contraditória!! Nada pedagógico…

Sim, foi muito ruim, porque eu era pequena e não tinha vocabulário, sabia apenas algumas palavras, então eu estava em uma sala com as coleguinhas e a professora foi falando pediu para desenhar não sei o quê, eu não sabia o que era…Só sabia que era para desenhar algo. Eu fui desenhando e quando terminei, empolgada e feliz, levei o papel para a professora e disse “Não foi isso que pedi!”, rasgou meu desenho e colocou no lixo mesmo. Isso foi muito triste para mim. Chorei o dia todo, fiquei muito mal! Eu não tinha ninguém para me proteger, para valorizar a minha construção. Isto é muito errado, pois causa um trauma para a vida toda, para qualquer criança.


9) Como que a escola contribuiu ou teve dificuldade de relacionar com a sua trajetória?

Toda a trajetória foi difícil, mas tiveram professores maravilhosos que me apoiavam e entendiam a minha dificuldade. A minha mãe era exigente, estava sempre em busca dos professores anotando tudo que tinha sido estudado no dia. Fazia então uma revisão diária de tudo que eu ia aprendendo: Até a 4ª e 5ª série, foi bem difícil…Eu tinha um vocabulário ainda pequeno em relação aos colegas, então tinha que me esforçar o dobro. A partir da 6ª série comecei a estudar sozinha e quando tinha dificuldade, minha mãe me orientava.Sempre fui passando de ano!! Foi muito importante para o meu crescimento, pois eu tinha sempre a companhia da mesma turma, aos poucos aprendiam a se relacionar comigo, e me ajudavam!


10) Tu passastes por algum processo de bullying?

Sim, mas não compreendia o que diziam. Os colegas ficavam brincando de gritar o meu nome atrás de mim, é claro que eu não escutava…Os outros colegas ficavam me avisando que eu estava sendo chamada, na qual eu não respondia…Eles se divertiam com isso.


11) No livro tu falas da tua relação com a música, como é essa relação?

Eu amo música desde pequena! É impressionante, quando tinha 4 anos de idade (não sabia que era surda), falei que com jeitinho, que só minha mãe me entendia: “ Queria ser cantora quando crescer”. Ela começou a chorar! Eu fiquei surpresa, não tinha entendido nada…Hoje eu adoro cantar, canto em casa e fiz até aula de música e canto! No livro eu conto que fiz uma apresentação em que cantei a música “ Amigos para sempre”, cantei no palco junto com a minha professora que tocava violão. Foi muito emocionante: Recebi aplausos com todos em pé!


12) De qualquer forma, tu consegues ouvir a música?

Eu sinto a música, mas não consigo entender as palavras, eu sempre pego a letra da música e vou decorando. Escolho sempre um cantor que tenha a voz clara e que os instrumentos musicais não abafem a sua voz. Com a letra decorada, vou acompanhando e fazendo um “fechamento acústico” dentro da musicalidade que percebo.


13) Tu tens que te dedicar o dobro ou o triplo. E uma coisa que nós ouvintes não percebemos. Como é viver intensamente em todos os momentos tendo que trabalhar para entender as coisas que estão acontecendo?

Sempre tenho que buscar por mim mesma, gosto de desafios. Agora estou fazendo aula de inglês e quero aperfeiçoar e até o final deste ano (2014), quero chegar ao nível avançado! Além de músicas, adoro línguas!Quando era pequena, dizia que ia aprender todas as línguas do mundo e inclusive “aquela assim”, puxando os olhos, era o mandarim! Eu sempre quero aprender mais, quero viajar pelo mundo adquirindo meu conhecimento!


14) E para todas essas línguas que queres aprender, vais ter que aprender leitura labial de todas?

Sim, no momento estou no inglês. Assisto filmes legendados, mas ao mesmo tempo vou fazendo leitura labial dos atores.


15) Qual é a importância da leitura, além da música?

É super importante!! Leitura é poder e informação! Com as informações adquiridas na leitura ganhamos o mundo, ter uma total independência! Eu fiz uma palestra na 59ª Feira do Livro no ano passado (NOV/2013). Falei na importância da língua Portuguesa para Surdos. A maioria tem dificuldades, não porque não conseguem, mas porque o sistema é muito complicado e existem muitos fatores que envolvem este aprendizado desde a família até profissionais dedicados e com tecnologia educativa avançada… Um dia vamos conseguir que tudo seja muito natural!


16) A importância fundamental de sua mãe que narras o seu processo. Como é a relação de vocês?

Maravilhosa!! Ela é a melhor mãe do mundo! Melhor amiga, companheira desde sempre (até hoje) não tenho palavras para expressar… Quero agradecer por tudo por todos os dias! Tive muita sorte de ter uma mãe assim que me acompanhou desde pequena.


17) Patrícia, “Surdez: Silêncio em Voo de Borboleta” é o primeiro livro? Qual é o próximo?

Sim, é o primeiro! Ainda estou estudando os detalhes para o próximo, com o movimento do meu blog. As pessoas buscam informações e me trazem outras. Com certeza meu 2º livro vai ser lançado. Vou focar o assunto sobre as necessidades de entendimento e educação na surdez.


18) Ainda existe preconceito na sociedade?

Ainda existe sim, mas hoje as pessoas estão tendo mais informações, há outros livros sobre surdez. Aquele tabu,está caindo, a pessoa surda, apenas tem uma limitação e que se for entendida e a sociedade souber lidar naturalmente com essa limitação, tudo se torna muito natural.


19) Mais alguma coisa a acrescentar sobre teu livro?

Bom, aquelas que não conhecem o meu livro, sugiro que leiam a obra, que é uma história de superação, e também para orientar pais de crianças surdas e que ajuda qualquer outra criança independentemente de deficiência. Este livro tem um caminho histórico de vida, mostrando a construção da personalidade da criança, estabilidade emocional evitando traumas, construir uma relação mais próxima com o filho e assim se tornando um adulto preparado para o mundo!